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Carta
dos trabalhadores de MG (REFORMA SINDICAL)
Belo
Horizonte, 06 de março de 2004
Ao Sr. Osvaldo Bargas, Secretário de Relações do Trabalho, do
Ministério do Trabalho e Emprego.
Prezado senhor Secretário,
Os Sindicatos e Federações de Minas Gerais que assinam o presente
documento, vêm, através do Sr., expressar ao governo federal suas
preocupações e opiniões acerca da Reforma Sindical e Trabalhista
em preparação no Fórum Nacional do Trabalho (FNT). E queremos,
com toda franqueza, dizer que a posição do governo até aqui vai
se configurando em mais uma grande decepção. Falamos em mais uma
decepção porque os trabalhadores brasileiros e suas organizações
sindicais – que foram fundamentais para garantir a eleição do
presidente Lula – esperavam ansiosamente as mudanças que nos
foram prometidas pelo candidato Lula, decisivas para que possa haver
um mínimo de dignidade na vida da nossa gente. Ledo engano, com
pouco mais de um ano de novo governo, aumentou em cerca de 1 milhão
o número de desempregados em nosso país, os salários perderam 15%
do seu poder de compra, o salário mínimo segue sendo a mesma
vergonha nacional de sempre. A reforma da previdência manteve todas
as iniqüidades (como o fator previdenciário) que sacrificam os
trabalhadores da iniciativa privada, eliminou direitos dos
servidores públicos e abriu caminho para a privatização com os
fundos de aposentadoria complementar. Na outra ponta da corda vemos
os bancos obterem os maiores lucros de sua história. Nosso país
segue submetido aos caprichos do FMI, remetendo bilhões de dólares
para os banqueiros internacionais enquanto aqui não há verbas para
investir na geração de emprego, na reforma agrária, na moradia
popular, saúde, educação, etc. As negociações da ALCA continuam
como ameaça fundamental à soberania do nosso país. É o resultado
da continuidade e aprofundamento das mesmas políticas praticadas no
governo anterior, que sacrificam os trabalhadores e os pobres para
beneficiar as elites. Onde estão as mudanças? Flexibilização de
direitos históricos dos trabalhadores brasileirosEsse é o objetivo
dessa Reforma Sindical e Trabalhista, senhor Secretário. Não somos
nós que dizemos isso. O senhor mesmo declarou dias atrás ao Carta
Maior que... “direitos mínimos não devem ser camisa de força
nas negociações. Para os grandes sindicatos a legislação mais
atrapalha que ajuda...”. Ora, senhor Secretário, os direitos
garantidos em lei nunca foram obstáculos à negociação. Nada
impede que se negociem benefícios a mais para os trabalhadores,
acima daquilo que a lei estabelece. O que sim está impedido – e nós
queremos que fique assim - é que negocie, para baixo, os direitos
hoje estabelecidos na legislação. O próprio presidente da república
trata de eliminar qualquer dúvida que reste. Em conversa com
jornalistas, divulgada pela imprensa dias atrás, foi categórico na
defesa da flexibilização de todos os direitos dos trabalhadores.
De acordo com o presidente, direitos como o FGTS, o 13° salário,
licença maternidade, jornada de trabalho, insalubridade, férias,
irredutibilidade dos salários ,etc, etc, estariam
“atrapalhando” a geração de empregos. Causa espanto e indignação,
senhor Secretário, declarações com estas vindas de um governo que
se diz dos trabalhadores ,ouvir da boca de ex-dirigentes sindicais a
mesma cantilena neoliberal, culpando os próprios trabalhadores e
seus já minguados direitos trabalhistas pelas dificuldades de geração
de emprego. Desafiamos o governo a nos apresentar um único país
onde a flexibilização dos direitos tenha gerado mais emprego! Fica
claro, pelo que os senhores mesmo dizem, que a Reforma Sindical não
visa fortalecer os sindicatos para enfrentar a Reforma Trabalhista
como se tem propalado por aí. Trata-se, por um lado, de desmantelar
os sindicatos de base para eliminar a resistência, enfraquecer a
luta dos trabalhadores em defesa dos seus direitos, e, por outro
lado, fazer concessões às Centrais Sindicais buscando coopta-las
para que colaborem com a flexibilização dos nossos direitos.
Negociações feitas pela cúpula, à revelia dos trabalhadores na
baseA proposta do FNT dá às Centrais Sindicais uma atribuição
que hoje é dos sindicatos que representam os trabalhadores na base.
As Centrais poderão negociar e contratar em nome dos trabalhadores,
e ainda definir, nestes acordos, o que poderá o e que não poderá
ser modificado dele nas negociações feitas pelos sindicatos de
base. Viria um pacote pronto da cúpula, para ser enfiado “goela
abaixo” dos trabalhadores. Os sindicatos perdem sua autonomia,
ficam submetidos à cúpula das Centrais Sindicais. Acaba a
soberania das assembléias de trabalhadores, que perdem o poder de
decidir o que será negociado e o que será contratado em seu nome.
Define também que “a lei não poderá cercear o processo de
negociação e contratação coletiva”. Ou seja, ressuscita-se a
idéia de que “o negociado prevalece sobre o legislado” que o
governo anterior tentou implantar através de mudança no artigo 618
da CLT. As Centrais poderiam negociar sobre tudo, inclusive os
direitos hoje estabelecidos em lei. Claro, a proposta fala em
ressalvar “os direitos mínimos inegociáveis que seriam
estabelecidos em lei”, mas não queremos garantir direitos mínimos,
senhor Secretário. Queremos garantir todos os direitos dos
trabalhadores. Fim da autonomia e da independência do sindicato de
baseA proposta do FNT implanta a pluralidade sindical – nefasta
aos trabalhadores, pois divide suas forças – na medida em que as
Centrais (e mesmo Confederações e Federações) poderão fundar
sindicatos onde já existam sindicatos representativos organizados,
através da chamada representação derivada. Na verdade, longe de
ampliar a liberdade de organização, o fim da unicidade, viria para
dar à cúpula das Centrais sindicais um controle e uma liberdade
quase que absolutos para fazer o que quiserem com a estrutura de
organização sindical. Os trabalhadores na base teriam muito mais
dificuldades que hoje para organizarem o seu sindicato. Um
verdadeiro retrocesso em relação ao que está estabelecido na
Constituição de 1988. Outra ameaça que paira sobre os sindicatos,
na proposta do FNT, é a perda da sua independência frente ao
governo. Na constituição de 1988, à exceção da unicidade
sindical, do imposto sindical e do poder normativo da justiça do
trabalho, o Estado (e os governos, que são os seus administradores)
ficou impedido de intrometer-se na vida sindical. Agora o Ministério
volta a ganhar poder de indeferir o registro de um sindicato criado
por trabalhadores, cassar representação de sindicato já existente
e de intrometer-se no conteúdo dos estatutos da entidade. Uma
verdadeira “festa do boi” com o dinheiro dos
trabalhadoresTampouco é razoável a substituição do chamado
imposto sindical pela chamada “contribuição negocial”. Ora, o
imposto sindical significa uma subtração de 3,33% de um salário
mensal dos trabalhadores (desconto de um dia de trabalho no mês de
março). A chamada taxa negocial poderia levar de cada trabalhador
até 13,33% de um salário mensal (quatro vezes mais!!!!). Por outro
lado, como garantir que este desconto será aprovado em todas as
assembléias de base, num processo em que as negociações serão
feitas em nível nacional pelas Centrais? Maior dificuldade para o
exercício do direito de greveA greve é um direito do trabalhador,
assegurado pela Constituição. No entanto, sem respaldo na lei,
hoje a Justiça do Trabalho e a Justiça Comum adotam medidas como
multas contra os sindicatos, interdito proibitório, etc, para
impedir ou dificultar o exercício deste direito pelos
trabalhadores.As normas que estão nas propostas do FNT legalizam
isso que hoje é feito pela justiça ao arrepio da lei. Pior,
sujeita os dirigentes de uma greve às sanções do código penal,
caso o movimento atinja os direitos de qualquer pessoa. Ora, e no
caso de uma greve no setor de transporte? Estariam criminalizadas as
“comissões de convencimento”, os piquetes que hoje fazemos em
nossas greves? Em nosso nome, NÃO! Queremos também deixar claro,
senhor secretário, que as Centrais Sindicais que estão chegando a
estes “consensos” no FNT, o fazem completamente à revelia dos
sindicatos de base. Nenhuma delas discutiu estes “consensos” com
sua base, e menos ainda tiveram sua aprovação para acordar o que
acordaram lá. Frente a isso há uma pergunta que não pode calar:
Se hoje as direções dessas Centrais se dão o direito de negociar
e pactuar sobre questões dessa importância, pelas costas dos
trabalhadores, o que não serão capazes de fazer quando obtiverem o
direito legal de negociar e contratar em seu nome? Queremos dizer ao
senhor que não aceitamos que tudo isso seja feito em nosso nome.
Que não aceitaremos o desmantelamento dos sindicatos que
representam os trabalhadores na base, nem aceitaremos a flexibilização
e a eliminação dos direitos dos trabalhadores. O que nós
queremos: Não estamos entre aqueles que acham que não há
problemas na organização sindical ou no sistema de negociações
em nosso país. Nós também queremos mudanças. Mas queremos mudanças
para melhor e não para pior! Nós queremos, senhor Secretário, a
manutenção em lei dos direitos trabalhistas, cuja conquista tantos
sacrifícios custaram à classe trabalhadora brasileira. Melhor
seria se o governo, ao invés de atacar estes direitos, revogasse as
leis flexibilizadoras aprovadas no governo anterior; Queremos
garantia de emprego, o fim das demissões. Se o governo quer mesmo
ajudar os trabalhadores, porque não edita uma medida provisória
ratificando a convenção 158 da OIT, que proíbe a demissão
imotivada? Queremos a redução da jornada de trabalho, sem reduzir
os salários, para gerar mais emprego e melhorar a vida do
trabalhador; Queremos um salário mínimo digno, pois essa é uma
forma verdadeira de distribuir renda neste país, e não medidas
paliativas e demagógicas como o “Fome Zero”; Queremos o direito
de organização dentro dos locais de trabalho; Queremos a garantia
de pleno exercício do direito de greve; Defendemos, senhor Secretário,
a unidade, a autonomia e a independência dos sindicatos, porque
estes são os instrumentos que os trabalhadores tem para lutar por
seus direitos e interesses; Assim como defendemos a soberania das
decisões tomadas na base, pelos trabalhadores reunidos em assembléia,
pois a eles e a mais ninguém cabe decidir sobre as questões que os
afetam. Lutaremos por estas idéias Não nos negamos a discutir com
o governo mudanças na organização sindical e no sistema de relações
de trabalho. Mas queremos uma discussão séria, baseada em
pressupostos que nos levem a melhorar a vida dos trabalhadores. Para
isso apresentamos as reivindicações acima. E lutaremos por estas
reivindicações. Nas discussões com o governo, dentro do Congresso
Nacional e junto aos parlamentares em cada um dos nossos estados,
mas principalmente nas ruas, mobilizando os trabalhadores, reunindo
forças para que sua voz seja ouvida e seus direitos respeitados.
Algumas entidades que assinam este documento:
Federação Sindical e Democrática dos Metalúrgicos de Minas
Gerais/CUT
Federação dos Empregados em Estabelecimentos Bancários dos
Estados de Minas Gerais Goiás,Tocantins e Distrito Federal/UNS
Federação dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Minas
Gerais/UNS
Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas
e de Material Elétrico de Minas Gerais
União Nacional Sindical
União Nacional Sindical/ Minas Gerais
C.G.T. Minas Gerais
SINDEESS – Sind. Emp. Estabelecimentos de Saúde de Belo
Horizonte/CUTS
Sindicato dos Ferroviários de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São
Paulo, Goiás e Distrito Federal/UNS
Sindicato dos Trab. Transporte Rodoviário de Belo Horizonte e Região
Sindicato dos Trab. Transporte Rodoviário de Juiz de Fora/UNS
Sindicato dos Emp. no Comércio de Belo Horizonte e Região
Metropolitana
Sindicato dos Emp. no Comércio de Juiz de Fora/UNS
Associação dos Bancários de Belo Horizonte e Região/UNS
Sindicato dos Trab.Motociclistas, Ciclistas e Afins de Minas
Gerais/UNS
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