Investidor mantém 'sangue-frio' à espera de reforma da Previdência

06 Dezembro 2018
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Os investidores do mercado brasileiro mantêm o sangue-frio com a equipe do presidente eleito, Jair Bolsonaro, e aguardam 2019 para dar peso às declarações sobre a reforma da Previdência. As considerações feitas por membros da nova equipe nesta semana, com a possibilidade de fatiamento da pauta, não foram suficientes para gerar reação negativa nos ativos, mas o avanço do tema já para o ano que vem é crucial para que os cenários mais positivos para os ativos se concretizem.

Essa leitura tem respaldo em movimentos como o de ontem, dia de baixa liquidez por causa do feriado nos Estados Unidos. Mesmo em um contexto de incerteza, o Ibovespa subiu 0,47%, aos 89.040 pontos. Já no mercado de juros futuros, a taxa de longo prazo - medido pelo DI para janeiro de 2025 - passou de 9,76% para 9,78%.

Para profissionais consultados pelo Valor, embora os desencontros entre os integrantes do governo não ajude, mais algumas semanas serão dadas ao time para que o discurso seja alinhado e levado ao pé da letra. Na avaliação de Evandro Buccini, economista-chefe da Rio Bravo Investimentos, economista-chefe da Rio Bravo Investimentos, é natural que existam esses desencontros, já que o governo eleito não tinha estrutura partidária e política montada. "O PT e o PSDB, mesmo nas campanhas, já tinham propostas prontas. Agora é diferente, o governo não sabe o que vai fazer. Pode ser natural para essa fase."

Maurício Oreng, economista-chefe do Rabobank Brasil, afirma que ainda é cedo para avaliar de maneira rigorosa os comentários da equipe. Segundo ele, tudo é muito preliminar e não dá para determinar se o foco vai ser o mesmo das declarações recentes. "Vamos precisar ver a proposta em si, que vai definir o quão ousado o governo vai ser nas mudanças, e as negociações políticas para entender se está sendo criada a base para que as medidas sejam aprovadas. Tem muita água para rolar."

No entanto, os especialistas concordam que, no primeiro semestre, a equipe precisa avançar na tramitação da reforma da Previdência para que os ativos não apresentem reação negativa. "A falta de direcionamento é ruim. A incerteza é pior do que a certeza de uma reforma mais enxuta", diz Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos. "Desde a eleição, em nenhum momento tivemos clareza sobre o que estão debatendo. Várias propostas são discutidas e as declarações são desencontradas."

A falta de urgência da nova administração a respeito do tema da Previdência é preocupante, mas só mesmo a partir de janeiro é que ficará claro qual a disposição do governo para promover ou não mudanças mais firmes, afirma Alexandre Póvoa, presidente da Canepa Asset Management. "É importante que o governo indique uma reforma crível."

Na visão de Buccini, da Rio Bravo, os ativos precificam expectativa de uma reforma com efeitos finais parecidos com aquela proposta por Michel Temer. Espera-se que exista algum avanço significativo já na primeira metade do ano - e isso é crucial para os cenários traçados para a bolsa, câmbio e juros futuros. No caso do Ibovespa, por exemplo, a projeção das principais casas de investimento é de um índice de 100 mil a 120 mil pontos no próximo ano - e que só vai acontecer com uma nova Previdência em vigor.

Em amplo relatório de perspectivas para 2019 e 2020, o Credit Suisse afirmou que o progresso das reformas fiscais, em conjunto com o crescimento da economia, deve elevar tanto a perspectiva de lucros das empresas quanto o retorno das ações.

"Apesar do desempenho mais positivo da bolsa comparada a outras classes de ativos nos últimos anos, os preços não estão caros", diz o banco. O mercado embute nos preços uma probabilidade alta de aprovação de mudanças que garantam a solvência do país, diz Oreng, do Rabobank. No risco país, por exemplo, o economista não vê grande diferença na comparação com países como México, que estão em outro patamar fiscal. A paciência do mercado nos próximos meses no processo de aprovação vai depender das condições externas, na visão do economista. Se as condições globais estiverem favoráveis e os investidores com apetite de risco, a tolerância será maior.

Fonte: Valor Econômico

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